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sábado, 2 de abril de 2011

O mundo louco de Erasmo

Por Márcio Caseiro.
Reprodução.
      "Louca humanidade". Assim dizia o teólogo e filósofo Erasmo de Rotterdam em sua mais célebre obra 'Elogio da Loucura', onde põe a loucura em pessoa - em forma humana de mulher- a discursar.
A narrativa é tão envolvente quanto a presença insana da loucura, a qual, por si só, já atrai a atenção de todos os expectadores, que se poem a direcionar os ouvidos aguçados por ouvir o que a tal personalidade tem a dizer.


      O poder de domínio que a loucura exerce sobre a plateia é tal que todos ficam admirados ao que verdades são reveladas pela figura, quais sejam: a de que a humanidade só é feliz por gozar dos favores da loucura e de que somos todos tão insanos quanto a própria palestrante da noite. É que o ser humano, sempre orgulhoso por sua maior atribuição e qualidade, a racionalidade, é totalmente irracional no que diz respeito à certas atitudes de grande relevância em sua vida. Todos somos loucos, desde o mais novo recém nascido ao mais ancião dos anciãos deste mundo, de forma que, através de exemplos que a loucura começa a enumerar, convence toda a plateia, que sai devota da grande deusa, como se auto entitula.


       Apesar de a loucura ser uma condição humana, dizia ela que as mulheres são as mais loucas de todas pelo fato de que, mesmo elas possuindo o dom natural da beleza, renunciacem-na e optassem por manter uma família ao lado dos homens - seres de pêlos no rosto. Há, ainda, as que abrem mão da liberdade para ter filhos que, sabem elas, lhes darão trabalho por, no mínimo, quinze anos, fazendo-as dispor de seu tempo particular para dedicarem-se às suas proles. Mesmo assim, agem neste sentido por falta de juízo e excesso de loucura.


      Pobre raça é a dos sábios, que desprezam a alegre loucura e se põe a pensar pelos cantos, sempre carrancudos julgando a inútil alegria dos outros uma eterna perda de tempo, por não conhecer os bons momentos e alegrias que a loucura tem a oferecer. Porém, mesmo o mais fervoroso dos sábios não consegue expurgar totalmente de si a loucura. Os resquícios restantes são demonstrados quando, ao apresentarem o trabalho de uma vida, debruçado sobre o qual finalmente se chegou ao término, dizem tê-lo escrito em uma semana no máximo. Desse tamanho é a hipocrisia humana, duramente criticada pela loucura, que, não obstante isso, mesmo após uma grande decepção acolhe os seus filhos como uma mãe.


     Não podemos negar, da mesma forma, que exercem extremo fascínio sobre nós as crianças, que necessitam de cuidados especiais por serem frágeis e débeis, porém, sua maior característica é a loucura. De nada sabem e agem impulsionadas pelo instinto. Assim também são as pessoas de idade avançada que vão se assemelhando, cada vez mais, às crianças. E assim procede a loucura, apontando suas intervenções no dia a dia das pessoas, dizendo que é a única que pode tornar a convivência possível e suportável.


     Sendo a loucura capaz de alegrar e viabilizar uma vida feliz, agradando aos humanos e aos deuses, sejamos loucos e felizes! Quem não tem juízo não percebe o tédio da vida.

sábado, 19 de março de 2011

O caminho para Oz

Por Márcio Caseiro.                                                                                                                        


Divulgação.                 

        "Em algum lugar além do arco íris [...]" Assim cantava a garota de doze anos de idade Doroty no filme 'O mágico de OZ' de 1939. Ela, uma menina sonhadora que vivia no interior do estado americano do Texas, nunca, nem nos mais mirabolantes de seus sonhos, pensou que viveria uma aventura sem precedentes.

       No enredo, um devastador ciclone se aproximava da fazenda em que vivia. Todos se abrigam no porão, exceto Doroty que não conseguiu chegar a tempo e tentou se abrigar dentro de sua casa, a qual foi levada para o alto pelo ciclone. A casa caiu em cima da bruxa má do leste em uma terra desconhecida por Doroty e assim, ela foi aclamada heroína pelos cidadãos daquele lugar. Porém ela queria voltar depressa para casa, pois estava apreensiva em relação à sua família. Neste momento, se aproxima a bruxa boa do norte e lhe mostra uma estrada de tijolos amarelos que a levaria para o palácio das esmeraldas onde se encontrava o grande mágico de oz que a poderia levar de volta para casa. Assim, Doroty começa sua jornada em direção ao mágico, tendo feito amigos pelo caminho e derrotado a bruxa má do oeste.

               Reprodução.

        Os amigos que Doroty fez se disponibilizaram a acompanhá-la e ajudá-la a chegar ao palácio porque também queriam fazer pedidos ao mágico – o espantalho queria um cérebro, o homem de lata, um coração e o leão queria receber coragem. Ao, finalmente, conseguir chegar ao mágico, Doroty e seus amigos, descobrem que ele é um grande farsante, tendo dado presentes simbólicos aos amigos dela – ao espantalho um diploma escolar, ao homem de lata um relógio em formato de coração e ao leão uma medalha – mas nada podendo fazer a respeito de Doroty, porém a bruxa boa do norte vem em seu auxílio e lhe diz como voltar para casa. Então, Doroty bate os calcanhares três vezes enquanto profere a frase inesquecível ‘‘Não há lugar melhor do que a nossa casa’’ igualmente, por três vezes. Retornando ao Texas, Doroty percebe que bateu com a cabeça e estava delirando de febre.

               Reprodução.

       Esta é uma história alegórica, a qual se caracteriza por encobertar outros significados, além da própria história, ou seja, em suas entrelinhas, se esconde outras idéias e significados. A própria Bíblia é um grande exemplo de alegoria, visto que Jesus ensinava ao povo por meio de parábolas, que têm conteúdo alegórico. Outros exemplos podem ser encontrados em fábulas que, ao criar toda uma história, verdadeiramente, pretendia deixar uma lição de moral a fim de criar, no leitor ou ouvinte, a reflexão das consequências de atos por nós praticados.

      Podemos comparar a história de Doroty com a busca pelos objetivos traçados por nós. Nossos sonhos se encontram atrás do arco íris, onde fica o palácio das esmeraldas, destino final da garota Doroty. O caminho é sempre uma representação muito bela das nossas jornadas, lembrando que precisamos nos esforçar e continuar sempre caminhando em direção à luz. Assim, várias outras histórias podem se tornar alegorias, basta darmos outros significados a elas, moldados conforme a experiência e vontade de cada um de nós.

               Reprodução.

      A jornada pelos caminhos do desconhecido nos leva sempre ao conhecimento sobre as coisas antes não percebidas. Se sabemos muitas coisas é porque já as experimentamos, já nos atrevemos a ir mais além do que sabíamos. O que não podemos nunca é estacionar, se o fizermos, poderemos acabar enferrujando como o homem de lata e a partir deste momento, tudo se torna mais difícil. Aliás, pra isso servem os amigos - e somente os bons - para nos ajudar em nossa jornada. Infelizmente, na vida real, não existe uma linda estrada de tijolos amarelos. Aqui, cada um tem sua estrada que, muitas vezes, possui muitos buracos e subidas mais acentuadas. Porém, a dificuldade só aumenta, infinitamente, o sentimento de orgulho de si mesmo quando se consegue, por mérito, chegar ao destino.

           O mágico de oz é uma grande metáfora sobre o crescimento espiritual e intelectual das pessoas. Chegar a um castelo reluzente é ter uma mente iluminada, que irradia luz sobre as trevas da ignorância antes dominantes em nossa mente. Assim como uma jornada de mil passos começa com o primeiro, precisamos de coragem a cada passo e, só assim, contemplaremos o grande mágico no palácio das esmeraldas: o destino.

               Reprodução.

       O desafio constante da vida está lançado desde que aprendemos a seguir nossos caminhos, que sempre contam com adversidades, mas também com surpresas boas no decorrer do mesmo. Às vezes é necessário refletirmos quando nos deparamos com uma estrada bifurcada, o que, não raramente, acontece. Devemos ponderar e tomar a atitude mais adequada, porque cada ação tem o poder de mudar o desfecho final de nossa jornada. Assim, podemos fazer uma viagem tranquila e satisfatória, ou, caso não percebamos para onde as estradas nos levam, uma viagem turbulenta. Aí, torna-se imprescindível que haja um guia nos indicando os retos caminhos. Outras vezes, temos o mapa em mãos, mas não sabemos decodificá-lo. Porém, quando adquirimos a consciência do caminho espiritual, certamente, estamos prestes a ver o mágico.